O absoluto de ontem me lembrou o Mundial de 2004.
A revista precisava ir para gráfica no domingo, e precisei escrever sobre o absoluto ainda no sábado à noite, a decisão Roger e Jacará ainda por acontecer.
Mas, por mais apelo que tivesse a finalíssima, a história da categoria já podia ser contada. Afinal, houve confrontos épicos, tais como Roger vs Tererê, Roger vs Garcia e Jacaré vs Xande, apenas para destacar três lutas entre outros tantos momentos espetaculares, afinal, estamos falando do Pan de 2011 e não do Mundial de sete anos atrás.
É grande a expectativa para a finalíssima de logo mais, entre o favorito de Romulo Barral, Rodolfo Vieira, e o atual campeão, Bernardo Faria. Mas não se pode esquecer do que aconteceu ontem nos tatames de Irvine.
Rodolfo passou por Braga Neto na semifinal, numa luta que começou bem tática, com Braga Neto tentando em vão levar a vantagem nas quedas. Perdendo por 2 a 0, só restou ao aluno de Gordo puxar, e aí Rodolfo soltou todo o gás economizado até então, e partiu para dentro, passando, pegando as costas e finalizando.
Braga ficou no caminho, e se levarmos em conta só o resultado, vamos passar por cima da fenomenal luta que fez contra Ricardo Demente, vingando a derrota no Mundial de 2009 e atropelando uma das maiores potências do Jiu-Jitsu atual, que foi bravo em se defender nas costas até o final, o relógio interrompendo a blitz no pescoço que começava a se estender pela área de proteção.
Bochecha perdeu para Bernardo na outra semifinal em outra luta de exaurir até quem estava assistindo, de tão movimentada. Começou melhor e abriu dois pontos, mas o omoplata de Bernardo empatou o placar, deixando para o show de desequilíbrios (dois do lado vencedor, um do perdedor) a tarefa de preencher o placar com 6 a 4, algumas vantagens sobrando para Bochecha por quase passagens e pegadas de costas.
Novamente injusto olhar só para a parte de cima da chave. Afinal, a luta na quarta de final entre Bochecha e Gabriel Vella também foi digna de decisão. O Santista guardeiro aluno de Cavaca começou surpreendendo com uma queda, entrando nas pernas do passador Vella, que caiu se ajeitando na meia guarda, para em seguida raspar finalizando com uma single leg. Gabriel colocou pressão e dominou o ritmo quase até o final, mas numa recuperada digna de campeão, Bochecha se livrou de uma passagem justa para emendar numa raspagem e já cair do lado do adversário. Vella não desistiu e se recompôs, lutando até o final, como é de costume, mas melhor para Bochecha.
Um parênteses aqui para enaltecer Vella. Ele é faixa-preta há mais de 10 anos, e foi campeão de roxa no Pan de 98, quando Bochecha tinha, salvo engano, 6 ou 7 anos de idade. E continua na ponta. Perdeu por detalhe e tem qualidades para chegar, como mostrou na luta anterior, nesta chave de braço linda registrada por John Lamonica:

O "veterano" Vella mostra técnica na chave de braço. Foto de John Lamonica.

Olha, finalizar aqui ainda é economizar emoção deste absoluto. Quem assistiu na Budovideos.com com excelentes comentários de Rafael Lovato (que descansou este Pan após lutar 12 seguidos — isso mesmo, segundo ele, competiu em todos desde 1999) vai lembrar das incríveis raspagens de Leo Nogueira, uma inclusive contra Rodolfo, que revidou com outra e o estrangulo pelas costas. E, claro, entre outras cenas, do feito da estrela do Arizona Ryan Beauregard, que chegou a abrir 6 a 0 no gigante Big Mac e parecia que ia fazer história, porém o veterano paulista não se entregou e virou o placar. Big no entanto não voltou para enfrentar Bernardo nas quartas de final.
É, mesmo que Rodolfo e Bernardo consigam, como Roger e Jacaré em 2004, fazer uma final que ofusque lutas preliminares que valeriam como finais em 99% dos campeonatos de Jiu-Jitsu, o suor alheio nunca será esquecido para quem tem boa memória — ou para quem escreve na véspera, diante do prazo da gráfica.